O GONÇALO
O Gonçalo é um menino de cinco anos que, por ser tão especial, passa a vida a ensinar-nos coisas. Mesmo às pessoas crescidas! É irrequieto, mas meigo. É corajoso, mas sensato. E sobretudo é um grande amigo! Se vir alguém em apuros não resiste a ajudá-lo!
Para além disso, é um menino que quer sempre descobrir mais coisas. Tenta saber de tudo um pouco. Enfim, há quem diga que é curioso mas, em vez disso, eu prefiro chamá-lo interessado.
Os seus cabelos são compridos e encaracolados, brilhando doirados ao sol! E os olhos, esses, são redondos e verdes como azeitonas, sempre à procura de mais aventuras. É um autêntico aventureiro!
Enfim, se algum de vocês vir por aí um menino com estas características, vestindo umas jardineiras vermelhas, já sabem de quem se trata.
É o Gonçalo, com a sua roupa preferida, a meter-se em mais tropelias!
Como ele próprio diz: “Posso ser pequenino mas não tenho medo!”
CAPÍTULO I
“Talvez da próxima vez ele tenha mais sorte e o avô lhe ofereça uma estrela-do-mar! Seria extraordinário! As estrelas-do-mar são tão bonitas quanto difíceis de apanhar! Tem que ser à noite e não podemos fazer barulho, senão elas assustam-se e escondem-se debaixo da areia!
O Gonçalo sempre quis ter uma. Antigamente perguntava-se donde é que elas vinham. Punha-se a olhar para o céu, admirando as estrelas que estavam lá em cima, pairando no nada. Calculou que talvez elas não caíssem porque estavam penduradas por fios tão fininhos que nem se viam. Bastava as estrelas ficarem quietas que não corriam qualquer perigo. Só que havia algumas que eram mais curiosas e espreitavam cá para baixo, esticando o cordel até ele se partir. É por isso que às vezes vemos aquelas estrelas cadentes a mergulhar nos oceanos, onde se transformam em estrelas-do-mar! Só pode ser isso!”
CAPÍTULO IV
“E, enquanto as letras se apaziguavam, o menino foi-se deitar. Deitou-se com o “E”, que fez de pente, e acariciou-lhe o cabelo até o sono chegar. E o sono veio de pantufas fazer-lhe cócegas no pescoço com uma pena de cisne. Veio com a chuva, que caiu em ameaços.
- E agora? Vou constipar-me! - O Gonçalo olhou para o céu e puxou os lençóis para se cobrir, destapando os pés que ficaram de fora a esfriar.
- A gente resolve já isso.
E o “J” chamou o “D” para irem ter com o menino. Pegou no “D” e ergueu-o no ar, segurando-o com a cabeça. E aos poucos o “D” foi inchando, até formar um guarda-chuva que abrigava o Gonçalo. Assim já não se molhava.
- Foi mesmo a tempo! - O menino sentiu-se protegido. Agora podia dormir quentinho e sonhar à vontade. Sonhar com um mundo onde as pessoas eram lápis de cor e o ensinavam a pintar. Onde podia sair a colorir as montanhas, os rios e os campos, com as cores de que mais gostava. Escolher a cor que queria dar ao sol ou à lua e voar de lápis na mão, a pintar o céu de azul. Foi assim que aconteceu. Rodeou-se de cor e dormiu.”
CAPÍTULO VIII
“Claro que sim. Todos os meninos merecem brincar! - exortou a mão-enfermeira que, enquanto falava com o menino, foi até a um dos cantos do quarto e pegou num cesto cheio de malmequeres. Ao todo, dentro do quarto estavam quatro mãos-enfermeiras.
Duas delas pegavam nos meninos e metiam-nos numa tina com água de rosas, lavando-os nos dedinhos dos pés. E enquanto isso, as outras duas pegavam nos malmequeres e bordavam cobertores macios, agasalhando-os durante a noite. Era assim que mimavam os meninos.
Deitavam-nos nas nuvens e viravam-nos de lado, para que adormecessem com o luar e acordassem com a aurora.
- Só não percebi uma coisa. Porque é que estas camas são nuvens? - perguntou o Gonçalo, apoiando-se numa delas.
- Oh! O que é que haveriam de ser? Para nós, estes meninos são anjos! Os teus pais nunca te disseram que os anjos dormem nas nuvens?
- Não... dizem-me é que passo a vida nas nuvens, isso sim! - confessou o Gonçalo, corando de vergonha em seguida - Sabem, é que eu sou muito distraído...”
CAPÍTULO XI
“- Cruzes! A sério? É tipo um aspirador mágico?!
- Mais ou menos. Vais ver que é tão rápido que, depois de te sugar, num piscar de olhos estás no teu mundo. - explicou a caranguejola, abanando as tenazes no búzio.
- E se me aleijo lá dentro? - perguntou aterrorizado o Gonçalo. Para ele, um piscar de olhos era uma coisa muito rápida. Era menos que um segundo! Fazia-lhe impressão viajar a tanta velocidade!
- Que disparate. Nunca vi ninguém aleijar-se num sonho!
- Ai não! Eu já me aleijei uma vez! Dei cá um trambolhão!
- A sério? Como é que foi isso?
- Foi no meu quarto. Tive um sonho tão horrível, que quando acordei estava no chão!
- Oh, não era a isso que me referia. Eu queria dizer dentro de um sonho! Ninguém se aleija dentro de um sonho!
- Ah! Fala-me assim! Isso é diferente! - opinou o menino, fingindo-se de entendido - Quer dizer, não tenho a certeza... mas dizem que é impossível...”
CAPÍTULO XII
“Estava assinalado um novo mundo. Um mundo onde as coisas ainda estavam por nascer. A primeira coisa que apareceu foi o sol. Parecia a gema de um ovo, redonda e vermelha, que fez crescer as searas de trigo, dourando-as ainda mais. E à sua volta, havia uma aura branca, espalhando almas por toda a parte. Era uma brancura que escorria das nuvens, criando pássaros no ar e árvores no solo, até as macieiras ficarem pejadas e as amendoeiras floridas. Pingava no solo árido e nasciam jardins de boninas e camélias, com o perfume destas chamando pelos melros. Ali, era assim que tudo acontecia, com o mundo encher-se de vida.
As almas passavam pelas coisas e elas simplesmente renasciam.”
“Foi assim que o Gonçalo nasceu.”
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